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A Revista Luz e Terra está publicando meu Diário de Bordo todas as quartas-feiras, com material inédito aqui no blog. E a partir da semana que vem, minhas fotos da viagem também estarão por lá, já que nem fazendo promessa consigo publicar fotos aqui.

Isso, é claro, se eu conseguir mexer nas fotos – como se não bastasse apenas uma prova na semana que vem, descobri que tenho outra na segunda-feira dia 10… E se eu não passar nessa, não posso encostar um dedo em nenhum paciente da Clínica!

Por isso decidi ficar em Shanghai durante o feriado, rachar a cuca de estudar, lavar minhas roupas, limpar meu dorm, escrever minha coluna pra Luz e Terra e mexer nas fotos…

Obrigada Cris e Carlos pelo espaço na revista e incentivo sempre!

Acompanhem aqui!

E comentem, comentem… Sou carente :P

A rotina anda puchadíssima, o que justifica minha ausência por aqui. Além de aulas e mais aulas de TCM, começamos a fazer aula de chinês – fundamental, ok – o que anda consumindo um pouco do tempo também. Mesmo estudando todo santo dia, tenho a sensação de que sempre falta alguma coisa! O bom é que de sexta-feira próxima até a terça-feira da semana que vem, teremos feriado por aqui.

Todos estão pensando em fugir da cidade, já que o feriado coincide com o início da Expo. O público esperado para a primeira semana de evento é de 70 milhões de pessoas – apenas para efeito de comparação, a população de Shangai é de 18 milhões. Ou seja, isso aqui vai virar um formigueiro humano.

O problema é que o feriado é nacional e este é um país de 1,3 bilhões de pessoas, o que significa que qualquer lugar vai estar entupido de chinesinhos. Jake sugeriu irmos para Huangshan, a Montanha Amarela, cuja programação é fazer caminhadas e mais caminhadas montanha acima – em fila indiana, pelo que a roomate chinesa de Odette disse. Também tem as Water Villages de Suzhou e Zhouzhang, maís próximas e acessiveis financeiramente – o que também tem um lado negativo, porque uns dois milhões de pessoas devem estar tendo a mesma idéia neste exato momento :(

Talvez a melhor coisa seja ficar na cidade, enfrentar a multidão e aproveitar os dias livres para estudar, já que teremos provas na semana que vem e na outra depois dessa também…

Ps: Estou desaprendendo a escrever em português, demorei séculos prá escrever esse tantinho de coisa aqui e to achando que ficou meio esquisito…

Levando-se em consideração um idioma no qual uma única letra (ou ideograma) tem o significado de uma frase inteira, anda sendo bem difícil, para uma ocidental como eu, acompanhar o modo de pensar dos chineses. Digamos que, no ocidente, nosso aprendizado ocorra de modo linear, como uma linha reta com começo, meio e fim. Aqui, as coisa acontecem de um modo completamente diferente. É como se o aprendizado ocorresse de modo circular, representado por uma bizarra e estranha espiral. Como se você fosse sabendo cada vez mais sobre o que um dia ouviu alguma coisa a respeito.

A aula de diagnóstico, por exemplo. É uma completa maluquice, pelo menos aos meus olhos. Está me dando um trabalho danado estar em dia com os tópicos dados em aula e estou tendo que ralar pacas para apreender o que, na minha visão, é o mínimo para quem largou tudo e veio para China estudar este treco.

Porque a coisa acontece mais ou menos assim: suponhamos que o tópico abordado sejam frutas, e que existam 4 tipos de frutas: bananas, maçãs, limões e abacates. Daí ela começa com a frase que me tira do sério: “olhemos as bananas com mais atenção”. E existem bananas nanicas, pratas e ouros. Daí ela vem de novo: “olhemos as bananas nanicas com atenção”. Sim, porque elas podem ser pequenas, grandes e médias. E como não poderia deixar de ser… “Olhemos as pequenas com atenção”. Porque tem as passadas, as maduras, as amassadas…

Bom, quando ela resolve falar das bananas prata eu nem me lembro mais do resto das frutas, quando chega nas maçãs eu já estou pensando que bem que eu poderia arrumar um lugar para fazer as unhas e cortar o cabelo, na hora em que fala dos limões eu estou sentindo saudades das cachorras e quando finalmente chega nos abacates… Eu já nem sei mais do que é que ela está falando.

Ainda bem que não sou só eu. Kevin, o chinês –australiano me confessou ontem, na hora do almoço, que está achando muito difícil entender de primeira o que ela diz. E olha que ele ainda tem a maior lambuja de ouvir tudo duas vezes, já que é fluente em inglês e em chinês. E “Arnie” anda tão distraído que nem percebeu que a professora de Diagnóstico não é a mesma que estava dando TCM Basics na semana passada.

Estudar, estudar, estudar…

Chinese speed

Todo mundo corre tanto nesta parte do mundo que acho que a própria Terra resolver girar mais rápido por aqui. Esta já é minha terceira terça-feira na China, mas parece que cheguei aqui ontem. Ao mesmo tempo, parece que estou aqui desde sempre. Os chineses sempre têm pressa e correm o tempo todo, e parece que até a natureza resolveu concordar e mudar de estação num piscar de olhos. De repente todas as árvores parecem ter ressuscitado como ursos que hibernam por meses e de repente acordam: os galhos secos começam a ostentar manchas verdes aqui e ali e, das pontas retorcidas, começam a brotar minúsculas folhas verdes. A gente anda pelas ruas tomando sustos, porque uma coisa que está lá não estava no dia anterior e às vezes é como um soco no estômago mesmo, de tão surpreendente. Por aqui o tempo passa rápido, tão rápido que a gente quase se esquece do que já foi e não é mais.

ps_eu queria colocar aqui uma foto incrível de uma cerejeira florida como a gnte vê nas pinturas orientais, mas não há progama proibido no mundo que me permita uploadar imagens aqui :(

Depois de ter sido devidamente vasculhada no pysical examination da semana passada, hoje obtive o resultado. Para quem achava que ia ganhar só um envelopinho com o resultado dos exames dentro, fiquei surpresa ao me deparar com um verdadeiro certificado (com foto, assinatura de três médico diferentes e carimbo do governo) de que sou uma pessoa saudável.

Copiando literalmente a frase no verso do papel, “No disease which is highly dangerous to the public health has been found” (“Nenhuma doença que seja altamente perigosa para a saúde pública foi encontrada”). O que significa que não, eu não sou contagiosa de nenhuma forma. Mas saudável, saudável mesmo do tipo assim, puxa vida!, que saudável!… Eu não estou não. No exame dos meus olhos, um xis no quadradinho “abnormal”, bem como no resultado do meu eletrocardiograma, onde uma pequenina “sinus arrihtmia” foi encontrada.

Que minha vista não é boa eu já sabia faz tempo, e já estava preparada para este resultado, uma vez que tive que sair durante o exame de vista para pegar meus óculos na salinha changing-room. Mas eu não esperava por um coração “abnormal”, então corri para meus amigos médicos de gente e de bicho que, depois de tomarem o meu pulso e ascultarem meu coração, me disseram que não deve ser nada demais, que o simples fato de eu esta nervosa durante o exame pode ter feito meu coração bater mais forte. Ou mais lento, já que me lembro perfeitamente de ter feito exercícios de relaxamento durante o ECG, temendo que o gráfico denotasse meu estresse com todo o processo. O que, by the way, deu super certo, tanto é que minha pressão estava 11 por 7.

Como o exame físico tem todas as preocupações menos a com o meu bem estar, os resultados obtidos são suficientes para que eu consiga solicitar meu visto de estudante.

Ok, next!

Extra! Extra!

Graças à genialidade e comportamento subversivo de minha querida roomie fajuta Sassá, é com imenso prazer que comunico que instalei um programa proibido que desbloqueia todos os sites bloqueados na China in box!
Ufa!, porque não aguentava mais pedir para a minha irmã postar para mim, ou apelar para as amigas mais chegadas, como a Nanda fofa que na noite de sábado me salvou do ostracismo por aqui :)
Thanks, Sassá :)

Thoughts

Às vezes, quando páro para pensar, nem parece que estou aqui. Estava checando o site da Revista Luz e Terra, que está publicando meu diário de bordo semanalmente, e logo abaixo da minha coluna tem um globo girando, mostrando de um lado a cidade de Shanghai com um pequeno pontinho vermelho. Literalmente do outro lado do globo, a cidade de São Paulo representada por um pontinho verde.

Senti um aperto no peito de pensar que tudo o que eu verdadeiramente tenho na vida – minha família, meus amigos, minha casa, minhas cachorras, tudo o que construí até hoje – está naquele pontinho verde, tão pequenininho, do outro lado do mundo. Todas as conversas imaginárias que eu gostaria de estar tendo com minha irmã, os problemas burocráticos bancários que eu não queria ter que depositar nas costas da minha mãe, os cuidados com as minhas cachorras, o processo de crescimento do meu irmão, minhas possibilidades profissionais futuras… Tudo tão longe, a dois continentes e um oceano de distância, naquele pontinho verde. Tão inacessível, mesmo tendo internet e telefone.

Me espanto com a facilidade com que, de novo, vim parar aqui. Me espanto como é natural responder, quando me perguntam se estou aqui passeando, que não, na verdade eu moro aqui. Depois de quase cinco anos de vida de estrada, sem saber onde estavam as minhas roupas, meus livros, meus amigos e meus amores, esta é a primeira vez que passo mais de duas semanas na mesma cidade. E é justo aqui, do outro lado do mundo. Nesta terra tão distante e estranha.

Esquisitíssimo pensar que, ao mesmo tempo, tudo o que estou vivendo, aprendendo aqui… Todos os amigos que já fiz, os lugares que já conheci, as risadas que já dei, as saudades que já senti, que tudo isso se resume àquele pontinho vermelho que marca Shanghai, no globo terrestre que gira em torno de si mesmo ao final da minha coluna no site da Luz e Terra.

Inevitável pensar que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia…

“Com os devidos creditos à minha querida amiga Nanda, que postou o texto para mim já que, daqui da China in Box, e mesmo com internet 3G, continuo sem conseguir postar no blog “

Like pigs

Like pigs… or cows!

Hoje tivemos que nos submeter ao physical examination. Não é que eu estivesse realmente preocupada com isso, afinal de contas acho que mesmo que eu tenha algum problema de saúde desconhecido, que venha à tona apenas na China in Box, não acho que seria algo tão sério a ponto de ser expulsa do país por isso. Mas já tinham nos falado tanto a respeito deste exame que fiquei nervosa com isso desde cedo.

Que você tinha que ficar pelada o tempo todo. Fazer ultrassom transvaginal. Fazer exame de sangue, urina e fezes. Que até catarrar num guardanapo ia ter que catarrar, para analisar a cor do catarro. Já estava até sentindo vertigens.

Não foi tão ruim assim. Mas, sinceramente, me senti como se fosse um porco. Ou uma vaca. Sendo conduzida de uma sala para outra e obedecendo a ordens de médicas chinesas bravas. Pode ser que elas não estivessem bravas de fato, mas da mesma forma que o mais macho dos homens me parece gay quando fala francês, qualquer um falando chinês me sua como se estivesse me dando uma bronca.

Pelas minhas contas, deviam ser umas 50 pessoas na fila. Passaporte original, cópia do passaporte (“don’t have? 1 yuan”), quatro fotos, formulário JW202 original, cópia do formulário (“don’t have? 1 yuan”), preencha esta formulário, aguarde. Daí fui para outra sala, preencher o formulário. No caminho conhecemos uma brasileira, Fernanda, que mora em Shanghai há 3 anos trabalhando como modelo. Que by the way nos contou a respeito deste restaurante brasileiro onde todos se encontram nas noites de domingo.

O formulário aborda todos os aspectos da saúde. Cirurgias, doenças sexualmente transmissíveis, HIV, hepatites. Malária? Febre amarela? Tifo? Não, não, não. Uma longa coluna de xizinhos no não. Não, não, não. Aí a entrevista. Está na China porquê? Por quanto tempo? Porquê, porquê, porquê?

Daí o changing room. Tirar toda a roupa da cintura para cima, vestir um roupão, pegar sua ficha e esperar no corredor. Ai as quase cinqüenta pessoas já estavam todas em seus devidos roupões, esperando no corredor. Primeira sala, exame de sangue. A mulher não trocou de luva, entre o examinando anterior e eu; se eu não tinha hepatite, agora talvez eu tenha…

Segunda sala: exame de vista. Terceira sala, ultrassonografia. Quarta sala, eletrocardiograma. Daí desce as escadas, para o Raio X, num frio de cinco graus, usando só um roupãozinho fuleiro. Depois do Raio X, sobe as escadas, sexta sala: tira a pressão, asculta o pulmão, palpação do abdome, exame das mamas. “Plastic?”, a médica me pergunta, quando abro o roupão. “No”, eu respondo. “Hao, hao!”, ela me responde, sorrindo um sorriso banguela. Pelo menos neste exame eu passei.

Espera na recepção, preenche outro formulário, volta para a salinha, troca de roupa, volta na recepção. Quer buscar o exame em seis dias ou receber pelo correio em casa? Receber em casa. “25 yuan”. Tirando os 500 que paguei no início de tudo, antes de ser só uma estrangeira de cabelo escuro sem sutiãn enrolada num roupão meio amassado, sendo avaliada de cabo a quase literalmente rabo.

Tudo isso para ver se estou à altura de continuar gastando aqui todo o dinheiro que já ganhei na vida.


Passamos na prova admissional! O cara na foto aí encima é o Dr. Li, ou Henry, como ele é conhecido no mundo ocidental. O avô dele é um médico muito famoso por aqui, e acho que é por isso que de vez em quando ele fica se fazendo de gostoso. O cara só fala sobre “examinations”; depois da prova, sabendo que já tínhamos passado e que ele não ia ter que lidar com a terrível missão de nos mandar embora da China like 2 stupid brazilian girls, ele relaxou e fez até brincadeirinhas, dizendo que é conhecido pelos outros alunos como “doctor examination”. Além disso, foi super mega bonzinho escrevendo uma mensagem em chinês explicando que nosso banheiro do dorm vira uma piscina todas as vezes que tomamos banho, para que eu e Elizabeth pudéssemos pedir reparos. Escreveu também solicitando ajuda para pedir um cartão fidelidade do Guci Kafei, que já virou o quintal de casa, onde acessamos a internet todos os dias. Assim conseguimos 20% de desconto em cada pedido. Por sinal, demos entrada no pedido da internet hoje. Demos o telefone do Kevin, o chinês australiano, para que ele possa combinar com o instalador a melhor data para configurar os modens, já que ele não fala inglês.

Quase uma semana de China now 

Hoje conhecemos nossos outros classmates. Somos um grupo de aproximadamente 15 pessoas, de todas as partes do mundo. Além de mim e da Sassá, temos mais duas brasileiras que moram em Shanghai em função dos trabalhos dos maridos. Tem o Jake, um americano simpaticíssimo que está viajando há mais de seis meses e que, em três meses, se formará médico osteopata na Califórnia. Patrick é suíço, Dakota também é americano. Tem o João, que é de Portugal e está morando na China há um ano e que já nos passou um contato interessantíssimo do Nan Jing Hospital, para fazermos um estágio quando os 3 meses de curso acabarem. Alem deles, um norueguês, um chinês criado na Austrália, uma japonesa e uma belga. Estes quatro últimos possuem nomes bem estranhos, que vou ter algum trabalho em decorar.

Apenas de nós terão que se submeter ao Entry Test, que será na sexta-feira. Os outros estão dispensados porque já fizeram um curso básico no ano passado, motivo pelo qual todos já se conhecem. Mas tenho certeza de que vamos nos dar todos muito bem. Logo no primeiro dia já nos cruzamos todos no Guci Kafei, o único com internet as nossas redondezas. A internet é lenta, mas serve para emails.

Elizabeth e eu devemos adquirir nossa própria conexão de internet amanhã; a universidade nos providenciou um documento que torna possível ter um mini-modem semelhante aos 3G no Brasil – aqui é necessário ter residência fixa para ter um desses. Amanhã temos também que nos apresentar em um posto policial para nos apresentarmos formalmente – munidas de cartas de apresentação da universidade e tudo – como novos residentes temporários da China. Depois disso temos eu fazer um exame de sangue para dar entrada na nossa troca de vistos – mesmo os estudantes que receberam o JW202 terão que passar por esse processo, o que é um alívio.

A universidade é fantástica, gigante e inacreditavelmente só tem cursos na área de Medicina Chinesa. Tem um herbário enorme, com todas as ervas chinesas, o melhor Museu do Corpo Humano do mundo (que esteve no BR há alguns anos) e um outro de Medicina Tradicional Chinesa que exibe até mesmo agulhas de 4000 mil anos de idade. É inacreditável pensar que vou ter acesso a todo este conhecimento. A SHTCM é uma das 4 únicas universidades chinesas que confere a seus alunos uma certificação que os permite atuar como médicos em território nacional, por isso é chamada “uma das 4 grandes da China”. As outras conferem certificação apenas para o território ou província na qual está localizada.

Conhecemos Sally e ela é uma fofinha – para vocês verem que nada na China é exatamente o que parece ser a princípio…

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